“Agora que estou velho, de cabelos brancos, não me abandones, ó Deus, para que eu possa falar da tua força aos nossos filhose do teu poder às futuras gerações” - Sl 71:18.

 Fico contente em ter sido convidado a falar sobre o passado e o futuro daquilo que veio a ser chamado de “Renovação Carismática”. Eu vi o começo desta reação ao Espírito Santo nas Igrejas históricas e sinto a necessidade de falar a “esta geração” sobre como isto era no início. 

O princípio

A Enciclopédia Britânica (Livro do Ano 1973) diz que pode ser dito que a Renovação Carismática começou quando eu contei ao povo da Paróquia de São Marcos, em Van Nuys, Califórnia, sobre a minha experiência. Eu não era, absolutamente, o primeiro pároco “conservador” a receber o batismo no Espírito Santo, mas, aparentemente, fui o primeiro a permitir que isso fosse conhecido abertamente pela minha congregação, na qual muitos acolheram entusiasticamente o que eu tinha para compartilhar (uso a expressão “batismo no Espírito Santo” neste artigo porque é a que me parece ter a melhor autoridade bíblica. Este foi o termo usado pelo próprio Senhor, em At 1.5, e o qual Pedro cita em At 11.16. Também gosto de usar o termo: “a liberdade do Espírito Santo”).

Alguns líderes ficaram assustados, mas não posso culpá-los, já que tudo era muito novo. Quando ficou claro que íamos entrar em conflito sobre o assunto, renunciei à condição de pároco daquela comunidade de 2.600 membros e fui para Seattle, sob o convite do Revmo. William Fisher Lewis, antigo bispo de Olympia, para me tornar o vigário da Igreja de São Lucas, Ballard, a qual estava pronta para ser fechada, sem esperança. O povo daquela pequena paróquia aceitou o que eu tinha para compartilhar e então foi a São Lucas que se tornou a maior demonstração da obra do Espírito Santo em uma congregação conservadora (a história completa é contada em detalhes em meu livro: Nine O’clock In the Morning)

Bispo Lewis não apenas me encorajou a “trazer o fogo”, mas ele acompanhou o que aconteceu em São Lucas com incansável interesse e apoio. Quase imediatamente após a minha chegada a Seattle, ele me convidou a falar ao clero e pouco depois uns doze sacerdotes locais foram batizados no Espírito.

O bispo também começou a colecionar declarações escritas das pessoas de São Lucas sobre suas experiências e estava planejando que eu me unisse a ele para fazer uma apresentação à Casa dos Bispos. Infelizmente, esses planos foram interrompidos por sua morte, em 1964. William Fisher Lewis foi um verdadeiro pai em Deus e uma forte fonte de encorajamento para a Paróquia de São Lucas. Através dos anos que se seguiram, recebi constante suporte e encorajamento do meu bispo. 

Pentecostal e Carismático 

À medida que as boas novas começaram a se espalhar, a palavra “carismáticos” passou a ser usada para se referir aos membros de denominações conservadoras que embora estivessem recebendo a liberdade do Espírito Santo continuavam em suas respectivas tradições.

Muitos dos antigos pentecostais aceitaram os “carismáticos” com alegria, mas alguns ficaram apreensivos porque já haviam desprezado as Igrejas históricas como “babilônicas” (freqüentemente com um bom motivo). Eles pensavam que se o que estava acontecendo era real, nós “sairíamos” como eles ou seus ancestrais fizeram. Era difícil para eles perceber que seus precursores tinham sido freqüentemente forçados a deixar suas igrejas, enquanto que agora as pessoas estavam tendo permissão para ficar e contar a outros.

Uma complicação adicional surgiu agora. Os pentecostais que aceitaram a realidade da renovação carismática nas Igrejas históricas começaram a se distinguir de outros pentecostais tradicionais denominando-se “carismáticos”, indicando que eles estavam abertos a pessoas dos grupos históricos que haviam sido tocados pela renovação. Infelizmente, a idéia que imediatamente surgiu foi a de que se você fosse “carismático”, precisava se unir a uma Igreja “carismática”. Alguns foram tirados da renovação carismática nas Igrejas históricas para se unir ao que realmente eram Igrejas pentecostais sob um novo nome: “carismático”.

Mais desentendimento surgiu da idéia de que “carismático” se referia a um estilo particular de adoração, embora não seja assim. Uma congregação não é “carismática” porque ela descarta o hinário e canta corinhos projetados na parede ou é exposta à monotonia do “rock gospel”, nem é “carismática” porque as pessoas trazem mensagens em línguas com interpretação ou profecia no domingo de manhã, ou erguem suas mãos em louvor.

Essas coisas podem ser boas e válidas, mas não fazem uma comunidade carismática. Certamente, enquanto as pessoas recebem liberdade no Espírito, elas adorarão mais alegre e livremente, mas em São Lucas, por exemplo, decorreram mais ou menos oito anos desde o começo da renovação, antes que houvesse qualquer coisa no culto de domingo de manhã que hoje seria rotulado de “carismático”. Uma comunidade carismática é aquela na qual os membros individualmente são batizados no Espírito Santo e estão diariamente orando no Espírito (no idioma ou “língua” dada pelo Espírito Santo) em suas orações pessoais. 

Nossa própria maneira de adoração 

Nosso Senhor, o Espírito Santo, parece desejar mostrar às pessoas as belezas e os valores primeiramente em seus próprios costumes e então voltar seus olhos para compreender os dos outros. Em São Lucas, no início, nós primeiro nos tornamos mais admiradores de nossa própria maneira de adoração, enquanto o Espírito tocava a vida das pessoas mais profunda e alegremente.

Logo percebemos ser necessário ter três celebrações da eucaristia a cada domingo de manhã e então adicionamos um culto vespertino, porque muitos desejavam vir à nossa pequena igreja, que naquela época tinha lugar para menos de 200 pessoas sentadas. Ninguém precisava ser incitado a vir; as pessoas não faltariam porque elas podiam sentir a presença do Senhor lá! Alguns vinham a todos os quatro cultos todo domingo, porque não podiam obter o suficiente da comunhão no Espírito!

Lembre-se, esse não era um grupo especializado de super-espirituais. As primeiras pessoas a responder ao Espírito em São Lucas foram episcopais [anglicanos] tradicionais com pouca noção de religião reavivalista ou de “reunião de oração”. Eram pessoas sérias da Igreja, que estavam tentando deslanchar sua pequena comunidade. Nós não tínhamos quase nenhum profissional ou empresário na congregação no início; mas um grupo sério de americanos de “classe operária”. No início, eles eram majoritariamente da meia-idade, com alguns idosos, embora os mais velhos estivessem entre os mais ativos! Havia quase o mesmo tanto de homens quanto de mulheres e muitos jovens acompanharam suas famílias e eles próprios entraram na renovação espiritual.

Nós sabíamos que nos domingos estávamos “pescando”, não nadando; a idéia era pescar o peixe, não assustá-lo! Certo domingo, na eucaristia das onze da manhã, um jovem casal católico romano nos visitou. Na saída, o marido comentou: “Foi um culto agradável, Padre Bennett, mas eu fiquei um pouco desapontado porque nada aconteceu!”. “Oh!”, respondi, “Você se refere a ninguém ter falado em línguas ou algo assim?”. Ele sorriu e assentiu, mas sua esposa interrompeu: “Mas eu nunca participei de uma missa na qual sentisse tanto amor entre as pessoas” ela disse. “Ah!”, falei, “Isso é o que queríamos que vocês sentissem!”.

A nossa música tornou-se notável para uma pequena comunidade. Certo domingo, o maestro de uma grande comunidade inglesa nos visitou e a congregação estava cantando um cântico a capella. Ele saiu sacudindo a cabeça. “Não é possível pessoas inexperientes cantarem esse tipo de música sem acompanhamento”, disse. Mas elas estavam fazendo isso!

Alguns anos atrás, minha esposa, Rita, e eu lideramos um seminário na abençoada Igreja Anglicana da Trindade, em Nassau, uma grande comunidade, com muitos profissionais. A música e a adoração para os encontros nos dias de semana eram definitivamente vigorosas e informais, com um sabor caribenho (divertido, também!) e havia dons do Espírito – línguas, interpretação, profecia.

Mas no domingo de manhã participamos de uma linda eucaristia da “igreja superior” e o mesmo grupo que havia liderado os cultos livres durante a semana, apareceu uniformizado como coral. O homem que tinha tocado tão agilmente o teclado durante a semana era o líder do coro e o organista, um músico excelente e sensível. Aquilo era carismático! 

Oração, louvor e informação 

Por muitos anos, em São Lucas, mantivemos um encontro à noite nas terças-feiras para oração e louvor, para o qual vinham pessoas de toda a região e de muitas denominações. No momento, nós éramos livres para seguir o Livro de Oração Comum, o qual é, afinal, uma grande compilação de louvor atuante; bater palmas em júbilo e cantar com as mãos levantadas a Deus. “Batam palmas, vocês, todos os povos!” (Salmos 47:1); “Seja o levantar das minhas mãos como a oferta da tarde” (Salmos 141:2)!

Naquelas noites, as pessoas eram livres para manifestar dons vocais do Espírito Santo, trazer palavras do Senhor em línguas e interpretação ou profecia, compartilhar uns com os outros o que Jesus estava realizando em suas vidas. Nós cantávamos; e cantávamos música da Igreja. As pessoas iam de um coro vibrante com fortes batidas de pé ao cântico Gloria in excelsis quase sem perder o passo, com igual fervor e bênção, e sem acompanhamento. Era “decentemente e com ordem”, mas nos divertíamos! A reunião continuava por três horas ou mais, de modo que viemos a chamar 1:30 da manhã de “Madrugada do Espírito Santo!”

Nós mantínhamos um “encontro de informação” toda sexta-feira à noite. Em tal ocasião, se estivesse na cidade, eu compartilhava o meu testemunho e dava alguma instrução. Então, após mais preparação, nós orávamos com aqueles que desejavam receber o batismo no Espírito Santo. Novamente, esse encontro era totalmente “não sectário”. Tínhamos pessoas de toda a região e de muitas denominações. Não era incomum ter uma fileira de irmãs católicas romanas e chegamos a ter a presença de um bispo ortodoxo, juntamente com ministros e pessoas de muitas outras denominações.

Algumas vezes, toda uma família recebia a liberdade espiritual na mesma noite; até três gerações em uma mesma família: avós, pais e filhos, todos recebiam o batismo no Espírito Santo e iam para casa exultantes. Se eu estivesse ausente, os leigos conduziam o encontro com grande êxito!

A freqüência aumentava no verão e conseqüentemente as nossas entradas. Não havia “baixa de verão” em São Lucas. Se as pessoas estavam na cidade, vinham à Igreja. Por quê? Porque era o maior prazer que elas tinham a semana toda! As pessoas vinham à Igreja porque queriam vir. Não demorou muito para que tivéssemos cerca de duas mil pessoas passando por nossa paróquia no período de uma única semana, embora a pequena construção suportasse apenas cento e cinqüenta pessoas sentadas e o subsolo, que servia como um salão da paróquia, mais ou menos duzentas. A paróquia tornou-se o centro físico da vida das pessoas porque o amor de Deus estava lá e elas sentiam isso.

Dentro de seis anos, tínhamos nos tornado uma paróquia auto-suficiente e uma das mais fortes no noroeste. Comecei a receber consultas de todo o país e de várias partes do mundo. Um homem que estava nos visitando disse: “Tenho ouvido falar desta igreja em Londres, Tókio, Honolulu, Moscou, Xangai e Rio de Janeiro. Eu vim ver com meus próprios olhos o que está acontecendo”! No meio de tudo isto, as pessoas contavam os milagres que estavam acontecendo em suas vidas. Em um encontro no lar, algumas vezes, levava duas horas para que dez ou doze pessoas compartilhassem o que tinha acontecido com elas apenas naquela semana quando o Senhor suprira suas necessidades.

Quando tínhamos um evento social ou uma festa como, por exemplo, o Natal, embora supostamente não estivéssemos ali para ter um encontro de oração, as pessoas logo estavam todas falando entusiasticamente umas com as outras sobre as coisas que Jesus tinha feito ou estava fazendo. Se eu tentasse conduzir alguma cantoria “divertida”, elas se uniriam a mim por algum tempo com canções do tipo “Down by the Old Mill Stream”, mas era tedioso e logo alguém diria: “Padre Bennett, não podemos cantar algo sobre o Senhor?”

Eu sentia que estava vendo como a Igreja primitiva era e como a Igreja ainda deveria ser. 

De volta aos seus próprios rebanhos 

Nós incentivamos as pessoas que nos visitaram a não deixarem suas próprias igrejas, mas voltarem e compartilharem com elas o que estava acontecendo e, como resultado, os pastores da região passaram a confiar em nós e muitos se interessaram pelo que estávamos fazendo. Um grande número deles recebeu o batismo no Espírito Santo e disso surgiu o “Presbitério Carismático”, um grupo informal de mais ou menos cento e cinqüenta ministros e sacerdotes, que nunca se organizaram oficialmente ou elegeram alguém a cargo algum, mas desfrutaram grande comunhão no Senhor.

Ministros batistas, pastores da Assembléia de Deus, sacerdotes católicos romanos, sacerdotes episcopais, pastores luteranos, homens de associações independentes; não tomamos decisões a respeito de doutrina ou prática, mas ouvimos uns aos outros e passamos a conhecer e admirar um ao outro. Descobrimos que podíamos orar e louvar a Deus juntos, porque todos estávamos apreciando suas bênçãos. Ocasionalmente, patrocinamos conferências bem-sucedidas e de grande alcance.

Porque em São Lucas, não nos envolvemos em “roubo de ovelhas”, mas enviamos as pessoas de volta para suas próprias igrejas. A nossa congregação não cresceu rapidamente em tamanho, mas cresceu em força. Não tiramos ofertas nos encontros públicos às terças e sextas, mas encorajamos o nosso próprio povo a entregar o dízimo. Paramos de fazer orçamentos e então tentar responder a eles e paramos de pedir dinheiro a quem não vinha à paróquia. Depois do primeiro ano, nós até mesmo interrompemos o habitual “Angariar de Cada Membro”. 

Embora fosse um privilégio ser o vigário e mais tarde o reitor de São Lucas por vinte e um anos, todo esse crescimento não era realização minha, mas era obra do Espírito Santo, algo compartilhado com as pessoas. Eu não me esquecerei de um domingo de manhã, logo depois de um culto, quando alguns de meus amigos disseram: “Você parece cansado! Ajoelhe-se aqui; nós vamos orar por você!”, o que então fizeram. Descobri que ao invés de estar empurrando um carro enguiçado, eu estava dirigindo um possante e que eu podia receber ministração das pessoas, assim como elas de mim. 

Meu próprio começo 

Eu havia tido uma vívida experiência ao receber o Senhor Jesus como meu Salvador aos onze anos de idade. Descobri que ele estava vivo e era incompreensivelmente maravilhoso, mas desde então gastei muito tempo procurando por algo mais. Tentei encontrar novamente aquele “primeiro bom êxtase casual” de minha conversão. Às vezes, sentia que o Senhor estava mesmo comigo, mas a minha percepção a respeito dele era limitada, embora minha crença intelectual fosse forte.

Você, que tem sido educado nesta época de conhecimento do Espírito Santo, não pode imaginar quão vazios éramos nós nessa altura dos anos 40 e 50 e até antes. Kenneth Scott Latourette em sua magistral narrativa de dois volumes sobre a Igreja cristã, que abrange a história até 1976, nem mesmo menciona o ressurgimento pentecostal! Entretanto, sem dúvida, o crescimento do movimento pentecostal é o fenômeno mais notável da história da Igreja moderna.

Em meu pentecostes pessoal, a alegria e a glória de Deus vieram sobre mim. Reconheci isto como o mesmo tipo de experiência que eu havia tido quando aceitei Jesus e quando eu experimentava sua presença, ocasionalmente; era o mesmo tipo de coisa, só que muito mais vibrante e não esmoreceu ou sumiu.

Não parecia importar se eu estava acordado ou dormindo, ou o que estava acontecendo; a nova percepção de Deus ficou comigo. Era uma incompreensível nova dimensão em minha vida espiritual. Eu tinha estado tentando muito me tornar mais consciente de Deus, mas agora, subitamente, ele estava comigo sem eu ter que buscá-lo. Como a Bíblia diz: ele me buscou e me encontrou e eu sabia!

Eu não tive precedentes para esta experiência. Não foi a concretização de qualquer expectativa que houvesse sido implantada em minha mente. Eu nunca tinha participado de uma Igreja de natureza pentecostal e não tinha noção do que eles ensinavam ou criam. Além do mais, não recebi o batismo no Espírito em nenhum tipo de contexto de Igreja, mas no cômodo da frente de uma casa particular, orando com dois leigos episcopais. 

Precedentes Anglicanos 

É verdade, eu tinha feito muita pesquisa ao longo de alguns meses, enquanto estava examinando tudo isso. Reli o segundo Rito de Instrução do Livro de Oração Comum de 1928. Na página 291, o tema é extremamente esclarecido: “A Igreja provê a Imposição de Mãos, ou Confirmação, na qual, depois de renovar as promessas e os votos do meu Batismo, e declarar minha lealdade e devoção a Cristo como meu Mestre, eu recebo os dons fortalecedores do Espírito Santo”.

Eu também olhei um livrinho que ainda permanece em muitas prateleiras do clero: Doutrina da Igreja da Inglaterra. É um registro de 1938 sobre a análise feita por uma comissão escolhida pelos arcebispos de Cantuária e York que recolheu as reais crenças declaradas pela Igreja da Inglaterra naquela época.

Na página 93, pode-se ler: “O envolvimento com o Espírito Santo é descrito no Novo Testamento como a marca distinta dos cristãos, que os separou do mundo; no cristianismo dos tempos apostólicos a experiência descrita como ‘recebimento do Espírito’ fica na vanguarda da vida cristã, simultaneamente como o segredo de sua alegria e poder arrebatadores e como fonte daquela vitória da fé que podia vencer o mundo”. Eu ainda fico maravilhado com a precisão desta declaração: “alegria e poder arrebatadores... vitória da fé”, mas isto é o que eu havia perdido em minha própria experiência cristã e que recebi quando fui batizado no Espírito.

Vale a pena notar, a propósito, que esta é uma declaração anglicana. Então, a desculpa que alguns evangélicos usam de que “essas coisas eram apenas para os tempos apostólicos” não se aplicam, já que os anglicanos crêem que o ministério apostólico continua nos dias de hoje! Os amigos que testemunharam para mim simplesmente me contaram fielmente o que lhes havia acontecido e então oraram comigo. Depois disso, não tive muito mais contato com eles.

Preocupa-me que tantos hoje em dia parecem não se apossar, ou talvez não tenham nem mesmo tido a chance de compreender o que aconteceu naquela época e pode continuar a acontecer hoje quando as pessoas recebem a mesma experiência pentecostal. Eu creio que o batismo no Espírito Santo seja o sistema de direção pelo qual o poder do Espírito se move do motor até as rodas.

O evangelismo liga o motor, mas sem o sistema de direção o povo de Deus não vai muito longe e logo começa a perguntar sobre quando Jesus virá e o tirará de um mundo com o qual está obviamente despreparado para lidar! 

O Fervor da Igreja Primitiva

Que essa capacitação pentecostal é o propósito da confirmação, é esclarecido pelo fato de que as igrejas que têm praticado a confirmação durante anos, especialmente os anglicanos, os romanos e os luteranos, são todos orientados para que a mesma Escritura, Atos 8.14-17, seja lida na organização da cerimônia.

Ela conta claramente como Pedro e João oraram pelos samaritanos para que recebessem o Espírito Santo, após a conversão e o batismo deles em água, por meio de Filipe, o evangelista. Jesus fez do recebimento do batismo no Espírito uma obrigação; e por uma boa razão, já que é isso que, através da pessoa do crente, torna o poder de Deus disponível ao mundo necessitado.

Naqueles primeiros anos, experimentamos o que era ser “cristãos primitivos”, tanto no entusiasmo de descobrir quão real tudo isto era, quanto em descobrir quão rapidamente alguém podia se tornar odiado! Descobrimos por nós mesmos por que as pessoas do primeiro século estavam preparadas para arriscar suas vidas a fim de pertencer à sociedade de Jesus de Nazaré. Pode ser que nenhum de nós tenha literalmente arriscado sua vida, mas arriscamos nossas reputações, nossos trabalhos, nossos amigos. Eu vi a maravilhosa comunhão e o amor com que as pessoas eram atraídas depois de terem sido libertas no Espírito. 

Logo descobri, no entanto, que havia mais em mim, assim como ainda há, que poderia saciar minha nova percepção de nosso Senhor, o Espírito Santo. Ele nunca nos abandona, mas descobri que podia perder minha consciência dele se não seguisse sua liderança.

Durante estes últimos trinta anos, tenho aprendido como continuar a responder ao Espírito Santo em mim, para que sua alegria, seu poder e sua liberdade possam continuar a fluir de mim e em mim. Certamente tenho falhado mais do que sido bem-sucedido, mas o Senhor é paciente. O maior desejo da minha vida ainda é desfrutar mais do que conheci no início.

Então, olhando para trás, minha preocupação ainda é manter aquela primeira chama acesa. Não perder meu primeiro amor. Freqüentemente, tenho querido chorar com o salmista: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. No entanto, tenho reconhecido e aprendido que ele não me desampara. Sou sempre eu que o abandono ou, no mínimo, torno meu ambiente repugnante e insustentável para ele, de modo que ele tem que se retirar para as profundezas do meu espírito, onde minha alma não está ciente dele por um tempo.

Têm sido três décadas difíceis, mas eu não voltaria atrás no tempo quando ainda não tinha sido batizado no Espírito Santo por nada no céu ou na terra. Não posso imaginar um pesadelo que fosse mais devastador do que perder esta consciência da realidade de Deus. 

A perspectiva 

E sobre considerar o futuro, a perspectiva? Hoje, ouço que o movimento carismático está esmorecendo. Alguns dizem que ambos os movimentos, pentecostal e carismático, passaram sua plenitude e estão agora desvanecendo para serem substituídos por uma “terceira onda” do Espírito, a qual, entretanto, nega que haja alguma experiência de um batismo no Espírito Santo subseqüente à salvação, mas que tudo acontece quando nós aceitamos a Jesus. Sustenta-se que não é necessário falar em línguas para ser batizado no Espírito.

Qualquer uma dessas linhas de pensamento demonstra que seus defensores não compreenderam o que foi esta renovação pentecostal ou carismática e do que se trata. Isso geralmente ocorre, e principalmente, porque as próprias pessoas não receberam o batismo no Espírito Santo e então são irmãos e irmãs simpáticos e bem intencionados, comentando a respeito de algo de que não têm participado.

Muitos têm a impressão de que a renovação carismática é simplesmente um entre muitos programas para fortalecer a Igreja, algo como o movimento do grupo de Oxford de sessenta anos atrás, ou como o movimento de cursilho, hoje. Essas coisas foram e são boas, mas a renovação carismática não é dessa natureza. Não é uma escolha dentre muitas. É a renovação da experiência do Pentecostes, quando as pessoas respondem às instruções de Jesus Cristo a todos os seus seguidores de que têm que ser capacitados antes de ir ao mundo com as boas novas.

A renovação carismática não é reavivamento evangélico, embora mais do que outra coisa ela tenha preenchido o atual interesse no evangelismo. É muito importante que vejamos a diferença entre reavivamentos, que são ondas esporádicas e transitórias de resposta a Deus, inegavelmente maravilhosas quando estão ocorrendo, e esta renovação universal da experiência de Pentecostes, que tem permanecido com força crescente por quase cem anos.

Este é o rompimento do Espírito Santo da prisão religiosa na qual ele tem estado confinado no curso da maior parte da história cristã, de modo que possa começar a fazer dos cristãos aquilo que eles têm que ser: centros de poder e alegria para refrigério e cura do mundo.

O evangelismo é a oferta inicial e a proclamação do perdão dos pecados através de Jesus Cristo e o recebimento do novo nascimento no Espírito Santo. Depois disso ter acontecido, Jesus nos ordena a receber a liberdade e o poder do Espírito, liberar o Espírito Santo que veio habitar em nós, de modo que ele possa nos abençoar e trabalhar através de nós (At 1.4).

Nós podemos estar tão próximos de ver essa verdade e ainda estar tão perigosamente distantes. O Espírito Santo vem habitar em nós quando recebemos Jesus como Salvador. Isto é absolutamente verdadeiro. Mas não necessariamente o recebemos, isto é, fazemo-lo bem-vindo e lhe permitimos governar nossas vidas.

Através do batismo no Espírito Santo, o Espírito de Deus tem permissão para expandir sua influência sobre nossa vida exterior; nossa vontade, nosso intelecto e emoções e nossos corpos físicos. Naturalmente, ele começa com a nossa fala e começa a disciplinar o membro desobediente e o torna útil para nosso Senhor o Espírito, de modo que pode nos dar palavras para expressar adequadamente nosso louvor e amor a Deus “com gemidos impossíveis de serem expressos por meio de palavras” (Romanos 8.26 KJ).

Então, podemos orar e interceder por nós mesmos e por outros em palavras que expressam precisamente a vontade de Deus. Essa disciplina da língua também torna possível a Deus falar através de nós ao seu povo, não apenas em pronunciamentos proféticos, mas em dons de línguas que são então compreendidas através do dom de interpretação. 

A Igreja tem que ser carismática 

Eu não mudei minhas vitais convicções sobre tudo isso. Ainda digo as mesmas coisas que dizia trinta anos atrás, embora, espero, com muito mais compreensão do que isso tudo significa.

O que está acontecendo com as pessoas hoje quando recebem a liberdade do Espírito é semelhante ao que ocorria no início, exceto que agora nós compreendemos muito mais a respeito. Sabemos, também, que isto ocorre quando peculiaridades e problemas de nossa alma, quer dizer, nossa natureza psicológica, começam a se mostrar, assim como quando um carro é tirado da estrada em alta velocidade e as falhas no mecanismo do motor aparecem, diferentemente do que ocorria quando o carro era conduzido à mercearia apenas uma vez ao dia.

Isso tem levado a uma atenção crescente na necessidade de oração específica para a cura da alma, da natureza psicológica, de modo que a vida do Espírito seja capaz de fluir em nós e através de nós sem barreiras.

A Igreja não é, principalmente, uma instituição de oração ou ensino. Ela tem que ser carismática. Ela deve manifestar os dons e o fruto do Espírito, pois eles são os sinais contínuos de que Jesus está vivo e pronto para abençoar as pessoas agora! As pessoas estão cansadas de ouvir falar sobre religião, seja por intelectuais semi-crentes, ou fundamentalistas arrogantes, e estão especialmente cansadas de cristãos mal-humorados que condenam tudo e todos, inclusive uns aos outros (e isso inclui os assim chamados “liberais” que usam interesses sociais para colocar as pessoas sob condenação).

Mas se as pessoas virem a glória do Espírito que habita em seus amigos e vizinhos e experimentarem seu fruto e seus dons derramando-se do povo de Deus para curar-lhes o corpo, a mente e o espírito, elas serão atraídas ao amor de Jesus e certamente receberão sua cura completa.

Jesus fez boas obras, curas e libertação e isso foi o que demonstrou ao povo que o Reino estava “próximo”, isto é, bem aqui e agora. Ele nos diz para fazermos o mesmo. Não é diferente hoje. Se as pessoas virem Jesus realizando essas coisas através de seus seguidores, como poderão recusar-se a aceitá-lo? 

O Poder do Espírito Santo

O evangelismo traz as pessoas para receber Jesus e então o Espírito Santo pode vir e habitar nelas. O batismo no Espírito Santo é deixar o poder do Espírito Santo fluir, para abençoar primeiramente o próprio indivíduo e então o mundo à sua volta.

Quando foi desafiado pelos outros apóstolos e irmãos porque havia ministrado ao centurião romano, Cornélio, e sua família, Pedro respondeu: “Assim que comecei a pregar, o Espírito, num instante, sobreveio a eles da mesma maneira como veio sobre nós no princípio. E naquele momento lembrei-me do que o Senhor me havia dito: João, de fato, batizou em água, no entanto, vós sereis batizados com o Espírito Santo! Portanto, se Deus lhes concedeu o mesmo Dom que dera igualmente a nós, ao cremos no Senhor Jesus Cristo, quem era eu, para pensar em contrariar a Deus?” (At 11:15-17).

É isto o que Jesus prometeu no princípio. Que não sejamos encontrados entre aqueles que resistem a Deus, mas entre os que permanecem com Deus, de modo que esta grande resposta ao amor de Deus e à graça do Espírito Santo possa continuar irrestrita em nossos dias.

Powered by Amazing-Templates.com 2014 - All Rights Reserved.